Amy Winehouse: meu depoimento para o G1

No dia em que Amy Winehouse morreu, o Diego Assis pediu um depoimento meu para o G1 pois lembrou que eu havia discotecado no seu show em São Paulo em janeiro. Pra quem ainda não viu, aqui está o texto:

Jornalista que discotecou em show de Amy no Brasil narra experiência

“Quando soube que os shows de Amy Winehouse estavam confirmados no Summer Soul Festival, que aconteceu em janeiro, logo entrei em contato com um dos produtores me oferecendo pra trabalhar de alguma forma no evento pois sou muito fã de seu trabalho e dos artistas que também viriam. Acabei sendo chamada pra discotecar entre os shows em São Paulo e fiquei muito feliz. Antes fui até a Florianópolis para ver a estreia da turnê. Foi o melhor dos shows no Brasil, Amy estava radiante, brilhou e deixou os verdadeiros fãs felizes e esperançosos. 

No dia do show em São Paulo, apesar de ser muito fã de música desde sempre e discotecar há dez anos, estava em êxtase mas tremi nas bases por ser uma brasileira branca ali no meio dos pais da música pop e negra, os norte-americanos e os britânicos. Mas tratei de aproveitar o momento, discotecando belas canções, e me emocionei ao ver a alegria e o amor pela música estampados na cara de Miranda Kassin, que fez um dos shows de abertura. Infelizmente justo no último bloco, antes do show de Amy, quando havia preparado um set de artistas importantes para ela (The Specials, Shirelles, Shangri-las etc) houve uma falha de comunicação e entraram no ar músicas aleatórias de balada vindas da torre de som. Mas pelo menos a área VIP delirou quando tocou alguma do Black Eyed Peas…

Todos os artistas do festival entraram pelo lado esquerdo de onde eu estava discotecando e Amy com sua equipe pelo lado direito. Nem me empolguei com a possibilidade de chegar perto dela pois sabia que seria algo difícil. Dei-me for feliz por ter conversado com os backing vocals Zalon e Heshima em Florianópolis e por conseguir ver os shows do palco em São Paulo.

O clima era o mais tranquilo possível. Vi o show de Amy ao lado dos músicos da Janelle Monáe e de Mayer Hawthorne, todos encantados por estarem ali. Se não fosse Amy e o resgate do soul old school originado por ela e Mark Ronson dificilmente eles teriam surgido no mapa musical (nem Adele, nem Duffy etc etc). Hawthorne chegou a tuitar: “Back to Black’ é uma das melhores músicas de nossa geração”. Quem ousa discordar?

Encontrei nos bastidores o Pinguim (Djamir), brasileiro que é roadie do CSS (Cansei de Ser Sexy), foi morar na Inglaterra e estava na equipe de Amy. Falou que ela é uma das artistas mais doces e generosas com quem ele havia trabalhado e que tratava com os músicos e equipe diretamente, não através de um produtor e empresário. Disse que construiu uma guitarra especialmente para ela e que ela ficou extremamente feliz. E que ela não era tudo aquilo de ruim que a imprensa pintava, que havia muito exagero.

Ao longo da turnê Amy foi se cansando e a qualidade dos shows diminuindo, deixando óbvio que ela não tinha estrutura psicológica pra turnês extensas. Vamos morrer com a dúvida se ela fazia esses shows porque realmente queria ou se era levada a isso.

Ontem para mim foi um dia terrível pois ainda tinha a esperança de que ela pudesse dar a volta por cima, mesmo que ficasse restrita apenas a gravação de álbuns e longe de turnês. Pode parecer futilidade sofrer tanto com a morte de alguém que nem sabia de nossa existência, mas como a nossa religião é a música, nos sentimos ligados a esses artistas como se fossemos irmãos de alma. Com seu talento e sensibilidade eles passam a fazer parte de nossas vidas, como alguém muito íntimo que fala conosco através de sua música. E a dor pela sua perda é real, chega a ser física.

Mas o legado de Amy é óbvio: com sua voz resgatou pro mundo a paixão pela música negra de alma, paixão que sempre existiu, mas que ultimamente andava soterrada sob letras materialistas, mulheres plastificadas e homens exibindo seus carrões de luxo. O pop vai sentir falta da emoção verdadeira que ela colocava em suas músicas.”

Fotos que tirei nos shows de Florianópolis e no de São Paulo 

Passaram-se três dias e eu ainda não consigo me conformar… ;~~

Fiz pro Blog da Tpm uma lista com cinco de seus grandes momentos. É assim que ela merece ser lembrada!

Vídeo postado hoje no /AmyWinehouseVEVO

Live at BBC Sessions, 08/03/2007 (show na íntegra)

***

Os melhores textos que li sobre Amy:

“Don’t go to Strangers”, Klaxonsbc
Lady Satin, Juliana Cunha
A geração das lindas letras ordinárias, Lúcio Ribeiro
Perdas e Danos, Plínio César Batista
Amy Winehouse parecia não pertencer a este tempo, Camilo Rocha
For Amy, Russell Brand
Amy flies in paradise, Adele

Textos antigos mas que valem a leitura:

A desgraça alheia, Renata Corrêa
Eternamente Amy Winehouse, Fernanda Young
(Esses dois comentam porque homem doidão é cool e mulher doidona é execrada…)

PS: Abri um grupo Amy Winehouse no Facebook

3 comentários sobre “Amy Winehouse: meu depoimento para o G1

  1. Não acho que seja futilidade sofrer com a perda dos artistas que, de alguma forma, fizeram parte de nossa vida.. Não trabalho com música mas "Back to Black" marcou uma viagem que fiz pra Londres em 2007. eu já gostava dela antes mas nessa viagem tornei-me fã de verdade, na ocasião tive problemas horríveis de ansiedade e ficava pensando em como seria estar no fundo do poço e ainda ter q agüentar paparazzis e pessoas (inclusive da família) me atormentando o tempo todo, me julgando sem estar na minha pele. também torci pra ela, torci para q ela procurasse ajuda, para que lançasse um novo álbum, para q voltasse a ter a aparência saudável do inicio da carreira.. E muito da minha torcida tinha no fundo um egoísmo por querer que ela continuasse produzindo e que suas novas músicas fossem minhas companheiras de viagem, porque no fundo nosso medo da perda nunca é pensando nos outros, é sempre na gente, no nosso sofrimento e saudade! Não me sinto no direito de julgá-la por não ter buscado/aceito ajuda, e ainda afirmo que na époc mais deprê da minha vida as músicas dela (q ironia!) me ajudaram de um jeito muito sutil a buscar ajuda e recuperar a vontade de viver.

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