Dois lançamentos em livro pra quem ama história da MPB: Dolores Duran e Roberto Menescal

Duas dicas imperdíveis pra quem ama ler sobre a história da música brasileira!

O jornalista e pesquisador musical Rodrigo Faour lança nesta segunda-feira, dia 12/12, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, o seu livro sobre a cantora e compositora Dolores Duran, “A noite e as canções de uma mulher fascinante”. A partir das 18h rola um super show em homenagem a artista com participação de cantores maravilhosos como Claudia, Angela Maria, Cauby Peixoto e Cida Moreira, entre outros, com noite de autógrafos na sequência.

E no próximo dia 27/11, terça-feira, o compositor e violonista Roberto Menescal, um dos criadores da bossa nova, e a jornalista Bruna Forte lançam o livro “Essa tal de Bossa Nova” na Fnac Pinheiros. 
Preparando o bolso pra adquirir mais esses dois lançamentos!!
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Denilson Monteiro lança a biografia de Ronaldo Bôscoli, "A Bossa do Lobo"; leia aqui o 1º capítulo

Ronaldo Bôscoli entre Vinícius de Moraes e Roberto Menescal
Conheci o Denilson Monteiro na época em que trabalhei no documentário do Simonal e logo nos tornamos amigos. Admiro imensamente o seu trabalho de preservar a história da música brasileira, que estuda há anos com muito amor e afinco. Seu primeiro livro foi a bio do Carlos Imperial (leia entrevista que o Hector Lima fez com ele sobre o livro) e também colaborou nas biografias do Tim Maia (Nelson Motta), Clara Nunes (Vagner Fernandes) e no livro de memórias de Erasmo Carlos.

Depois de “trombar” várias vezes com o compositor e jornalista Ronaldo Bôscoli na pesquisa de seus outros livros, o historiador teve a confirmação definitiva de sua vontade de escrever uma biografia do Lobo depois da grande interpretação de Mateus Solano como o compositor na minissérie “Maysa – Quando Fala o Coração”, exibida pela Globo em 2009.

Pois enfim Denilson está lançando “A Bossa do Lobo” pela Editora Leya. São 500 e poucas páginas que li em menos de uma semana, com uma prosa muito gostosa de ler se e uma pesquisa tão apurada que faz a gente pensar várias vezes: “como ele ficou sabendo desse detalhe?”. Quem se interessa por música brasileira não pode deixar de ler a história dessa figura chave na criação da Bossa Nova, na trajetória de Elis Regina, de Roberto Carlos e do amadurecimento da TV brasileira.

– Você começou na TV cantando em programa de cachorrinho amestrado, Bôscoli para Elis. – E você, que brochou ontem?, Elis para Bôscoli

Bôscoli entre Tom Jobim e Nara Leão

O lançamento oficial é hoje no Rio de Janeiro, mas o livro já está à venda nas melhores livrarias e sites. Pra quem estiver no Rio e puder ir, a noite de autógrafos é na Livraria da Travessa de Ipanema, a partir das 19h. A chance de trombar com vários dos personagens do livro é bem grande. ;-)

– Você já fumou maconha?, amigo. – Não, Bôscoli. – É o maior barato!, amigo. – Eu não gosto de coisas baratas. Garçom, me traz um Chivas Regal!, Bôscoli

Roberto Carlos e Bôscoli

Outra boa notícia é que um dos filhos de Bôscoli, o Bernardo, está produzindo um documentário sobre o pai, “Se é tarde me perdoa”, aos moldes do doc sobre Wilson Simonal. No site www.ronaldoboscoli.com é possível ver qual o andamento do trabalho. Como há pouquíssimas gravações do pai em vídeo, parte do filme será dramatizado.

Gentilmente o Denilson cedeu com exclusividade a este blog o primeiro capítulo de “A Bossa do Lobo”, que já começa de forma bombástica e não na tradicional, e às vezes maçante, sequência nascimento-adolescência-maturidade-morte.

Primeiro capítulo de “Ronaldo Bôscoli – A Bossa do Lobo”, de Denilson Monteiro:




MEDO E DELÍRIO 

E subitamente a calma daquela tarde de verão carioca se foi. O céu ficou como breu; prédios começaram a tremer, denunciando que a qualquer momento desmoronariam; o asfalto da Barata Ribeiro dava sinal de que iria se abrir e engolir todos aqueles carros que por ela trafegavam, assim como os pobres infelizes que caminhavam pela calçada. Como testemunha daquela catástrofe iminente, o desespero tomou conta de Ronaldo Bôscoli. Seu coração acelerou, e uma insuportável dor castigou seu peito, o suor ensopava suas mãos, e o ar lhe faltava. Sua única sorte era não estar sozinho, ter ao seu lado Luiz Carlos Miele, a outra metade da dupla “Miele & Bôscoli”, que apimentava o mundo do entretenimento com os shows que criava na noite carioca, e que muitos pensavam tratar-se de uma única pessoa de tão unidos que eram. Ronga segurou forte o braço do amigo e, quase sem forças, disse:

— Vamos correr pra casa que o mundo vai acabar.

O Barba não compreendeu o sentido daquela inesperada visão profética do camarada. Achou que fosse mais uma de suas brincadeiras.

— O que é isso Ronaldo, que novidade é essa?

— Bicho, eu tô falando sério, vamos depressa que vai acabar. ESSA MERDA VAI ACABAR!

— Acabar como?

— CARALHO, VAMOS EMBORA, MIELE! ESSA MERDA VAI ACABAR!

Miele viu que a coisa era pra valer. Fez sinal para um táxi que passava, entrou nele com o amedrontado Ronaldo e deu ordem para o chofer:

— Toca pra Visconde de Pirajá!

Encolhido no banco de trás, Ronaldo via passar através do vidro do carro imagens tão pavorosas quanto as do inferno que no seu tempo de colégio os padres do São José relatavam para ele e os outros garotos. Torcia desesperadamente para que o motorista afundasse o pé no acelerador e deixasse todo aquele horror para trás.

À medida que o táxi se aproximava de Ipanema, o céu abandonava o negro, ficando num tom de cinza menos amedrontador. E, quando o carro parou em frente ao prédio da Visconde de Pirajá nº 22, e Miele o tirou de dentro, Ronaldo já podia ver o brilho de uma tímida luz que lhe aquietou um pouco o espírito. No elevador, seu coração voltou aos 80 batimentos normais, o suor gelado que escorria por seu rosto e mãos evaporou, e o ar retornou aos seus pulmões.

Assim que chegou à cobertura onde morava, Bôscoli abriu a porta e correu direto para o bar. Pegou uma garrafa que vivia enfiada num saco de papel, um copo e se serviu de uma dose de um líquido avermelhado. Era um Cinzano, um vermute, mistura de vinho, açúcar e extrato de plantas aromáticas, cujo fabricante afirmava “ir bem a toda hora e em todo lugar”, mas que Miele, assim como os demais amigos do Velho, considerava intragável e não compreendia como ele a apreciava, razão pela qual tinha por hábito manter a garrafa escondida num saco de supermercado.

Depois de o primeiro gole escorregar por sua garganta, Ronaldo já conseguia ver o resplandecente sol que iluminava aquele fim de tarde na cidade de São Sebastião e voltou completamente ao seu estado normal. Contudo, Miele, ainda assustado, quis uma explicação para aqueles momentos de tensão que presenciara.

— E aí, Ronaldo?

— Pois é, às vezes me dá uns troços assim.

Ronaldo vivia dizendo para o amigo que era maluco, que tinha carteira de sócio de sanatório e que, por isso, não era bom contrariá-lo. Mas Miele sempre achou que fosse piada. Entretanto, o que o Barba havia testemunhado pela primeira vez foi uma das crises de neurose de angústia ou síndrome do pânico que costumavam acometer Ronga. Quem via Ronaldo Bôscoli, o brincalhão e sorridente pregador de peças; a língua afiada capaz de ir direto a mais escondida fraqueza de quem cruzasse seu caminho; o homem que colocava o dedo nas feridas alheias e ainda o girava para machucar um pouquinho mais; o bem-sucedido e invejado sedutor de incontáveis corações femininos, não imaginava a enorme legião de demônios com que ele tinha de pelejar. Colocar os pés na rua era uma luta diária para ele.

Como ainda não havia sido daquela vez que o mundo acabaria, totalmente relaxado, depois do último trago e de contar para Miele mais uma versão de como suas crises tiveram início, Ronaldo foi apanhar papel e lápis para tentar escrever novas ideias para a reformulação de O Fino da Bossa, o programa da TV Record de São Paulo que estava patinando na audiência. Ele e o Barba tinham sido contratados para dar um jeito na atração e fazer com que ela recuperasse os telespectadores que havia perdido. Era um desafio, mas em nenhum momento tão grande quanto ter de lidar com a estrela do programa e sua inimiga mais do que declarada, Elis Regina. O mundo podia ter escapado de seu fim há poucos instantes, mas ninguém teria como assegurar que isso não aconteceria no dia marcado para a primeira reunião dos dois.

Título: A Bossa do Lobo: Ronaldo Bôscoli (compre aqui)
Autor: Denilson Monteiro
Editora: LeYa Brasil
Formato: 16 x 23cm
Nº de páginas: 544
Preço: R$ 44,90
http://geral.leya.com.br/catalogo/detalhes_produto.php?id=54352

O primeiro livro que li na vida

Hoje ao arrumar meus livros na estante nova que comprei, achei o primeiro que li na vida e que carrego comigo sempre que me mudo. É O Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, uma obra-prima da literatura infantil que fala de amizade, perda e amadurecimento com muita sensibilidade.

Devo ter ganhado o livro de minha mãe por causa da novelinha de 1980, na Bandeirantes, que eu amava! Nessa época eu tinha uns 3 anos, é uma das primeiras lembranças que tenho da infância. O livro mesmo só fui ler algum tempo depois, com uns 5 anos, mas antes de aprender a ler direito eu o rabiscava inteirinho!

Achei graça ao rever esses desenhinhos e tirei fotos pra postar aqui:

Clicando na imagem dá pra ver maior

Lembro que eu morria de medo e de raiva da peste da Jandira, irmã mais velha do Zezé. Notem que ela aparece em vários desenhos, hahaha! Morria de vontade de ter grandes amigos como o velho Portuga e o Minguinho/Xururuca, o pé de laranja-lima. E chorava quando o Zezé tomava uma coça daquelas ou sofria alguma perda…

Não sei se esse livro ainda é adotado pelas escolas mas caso não seja, não deixe de indicar pros seus filhos. Tem também a inesquecível Coleção Vagalume, mas essa merece um post à parte outro dia…

Abaixo, alguns vídeos da novelinha que achei no YouTube:

Valeu, Mofo TV!
Taí, bateu vontade de reler o livro pela enésima vez… Muito obrigada, José Mauro de Vasconcelos, por ter marcado minha infãncia!
Indico pra um post sobre o primeiro livro que leram em suas vidas (caso não lembrem qual o livro exatamente, pode ser o que mais marcou sua infância): Ian Black, Alexandre Inagaki, Luiz PimentelAdelaide Ivanova e Lady Rasta.
Update: Que bacana, o Pimentel, o Inagaki e a Lady Rasta já responderam o desafio! Não espere o convite de alguém, faça um post a respeito e convide mais cinco colegas blogueiros. ;-)

"Nem Vem Que Nao Tem – A Vida E O Veneno De Wilson Simonal"

Se tenho um orgulho em minha vida profissional é ter feito parte da equipe de divulgação do documentário “Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei”. Tive sorte de trabalhar com várias coisas que amo mas esse tem um sabor todo especial pois trata-se do digno resgate do artista que aprendi a gostar desde pequena por causa de minha mãe.

Em mais um trabalho lançado neste “Ano Simonal”, agora é a vez da biografia escrita pelo Ricardo Alexandre, um de meus ídolos no jornalismo musical, e que, coincidentemente, também divide comigo a mesma paixão pelo Ronnie Von. Gentilmente ele cedeu a belíssima introdução do livro para eu postar neste humilde blog, trecho bem significativo pois quase nomeou o trabalho, que acabou levando o nome de “Nem Vem Que Não Tem – A Vida E O Veneno De Wilson Simonal”.

O livro vai ser lançado oficialmente neste dia 23 de outubro e já está em pré-venda na Cultura, Saraiva, Siciliano e Submarino. Também será possível comprá-lo em um stand que a Globo Livros monta no Sesc Pinheiros no final de semana em homenagem ao cantor que começa amanhã e vai até o domingo. Segue abaixo a introdução:

Este homem é um Simonal

Em meados de 1969, ao longo de várias semanas, a lendária revista Realidade destacou um de seus melhores repórteres, Mylton Severiano, para acompanhar o dia a dia do cantor Wilson Simonal. Com belas fotos e textos longos, Severiano registrava o auge do sucesso de um artista, aquele que já fazia tempo era “o maior showman brasileiro”, e cuja estrela não parava de subir. O título da reportagem não poderia ser mais apropriado: “Este homem é um Simonal”.

“Ser um Simonal”, naquele tempo, transmitia imediatamente ao leitor todos os atributos que o personagem da matéria alimentava havia quatro anos. O sucesso monumental, comparável apenas ao de Roberto Carlos; a capacidade aparentemente sem fim de gerar sucessos (“Sá Marina”, “Tributo a Martin Luther King”, “Nem vem que não tem” e, avassalador naquela época, “País tropical”); o famoso suingue, que colocava para dançar numa mesma pista a socialite e sua faxineira; o estilo pessoal, com roupas caras compradas na Dijon e do uísque Royal Salute sem gelo e sem água; a capacidade de comandar a plateia como se fosse seu próprio coral de apoio, tanto em uma boate da moda, em seu programa na TV Record, em teatros ou no Maracanãzinho; sua Mercedes do ano, conversível, vermelha e preta como o Flamengo; o menino pobre de Areia Branca que acabou duetando com Sarah Vaughan e arrancando elogios de Quincy Jones em Paris; o Simonal empresário, que montou seu próprio escritório para ter controle total sobre a sua carreira; a imagem poderosa, capaz de ajudar a vender lubrificantes e formicidas da Shell; o homem negro por quem suspiravam as loiras da alta sociedade. Ou, como resumiu o Jornal do Brasil numa série de seis reportagens biográficas: “Aquele cara que todo mundo queria ser”.

Exatos 30 anos depois, em abril de 1999, Wilson Simonal, magro, frágil e envelhecido, está no fundo de uma pequena casa de shows de São Paulo, o Supremo Musical. Protegido pelas sombras, assiste à apresentação do coletivo Artistas Reunidos, do qual fazem parte seus dois filhos homens, Wilson Simoninha e Max de Castro, então se lançando na carreira artística. Naquele dia, Simonal entrou após o início do show e saiu antes que acabasse. Voltou para o carro chorando, porque achava que não podia cumprimentar os próprios filhos em público ou mesmo ser reconhecido junto deles: tinha medo de que a imagem dos garotos ficasse associada à dele e que isso pudesse arruiná-los.

“Ser um Simonal” tinha um significado muito diferente daquele ano de 1969. Significava ser proscrito do ambiente artístico com força e rancor, como nunca havia acontecido antes – e não voltaria a acontecer. Significava ser indesejado por onde passasse, a ponto de fotógrafos se recusarem a fotografá-lo e outros artistas se negarem a pisar no mesmo palco que ele; ser “exilado em seu próprio país”, como definia; ser um espectro, um fantasma, ter sua contribuição apagada da memória oficial da música brasileira – como se milhões de discos não tivessem sido vendidos, milhões de pessoas não tivessem cantado com ele nos shows, nem o assistido pela televisão. Era sinônimo de alcoolismo, impontualidade, amargor e solidão; significava ser mau pai, mau marido, amigo ingrato; um “crioulo que não soube o seu lugar”. E acima de tudo, e mais certo do que tudo isso junto, significava ser um dedo-duro dos tempos do regime militar, um homem que, não contente com a fama e a fortuna, teve o mau-caratismo de “entregar” colegas artistas para os órgãos de repressão do governo militar, que os torturava e os exilava.

Este livro é fruto de dez anos de pesquisa sobre o que significou “ser um Simonal”, ao longo de 62 anos de vida, para o cidadão Wilson Simonal de Castro e para o Brasil. Ao mesmo tempo, este trabalho tenta desvendar como um país inteiro pôde mudar de opinião tão violentamente sobre um de seus maiores ídolos, baseando-se às vezes em fatos, às vezes em lendas e outras vezes em sentimentos complexos como racismo, paixão e inveja. E, claro, investiga nas cicatrizes da infância, na vida pessoal do adulto e na contextualização histórica de sua música os mistérios que levaram à ascensão e à queda de um artista. Talvez o mais completo, certamente o mais simbólico artista que o Brasil já viu – e que, de repente, não quis mais ver.

Ricardo Alexandre
Setembro de 2009

"Nem Vem Que Nao Tem - A Vida E O Veneno De Wilson Simonal"

Frank Sinatra Has a Cold

A Esquire republicou em seu site a lendária matéria Frank Sinatra Tem um Resfriado, do americano Gay Talese. Esse texto é considerado o “Picasso” do Jornalismo e um dos marcos do chamado New Journalism ou Jornalismo Literário.

O jornalista levou um cano da “Voz”, que tinha pego um simples resfriado, e mesmo assim não desistiu da matéria. Traçou o melhor perfil já feito pelo cantor mesmo sem sua presença, apenas entrevistando as pessoas a sua volta. Clássico é pouco!

Dá pra encontrar esse texto em Português no livro “Fama e Anonimato”, que foi relançado recentemente pela Cia das Letras.