Meu TEDx já está no ar no YouTube do TEDx Talks!

Aqui neste post abriu meu coração e contei como foi minha preparação para o TEDx Laçador – Repense, em Porto Alegre, com toda a ansiedade pela qual passei.

Agora finalmente está no ar no YouTube o talk que apresentei dia 30 de junho. Falei sobre como a moda pode trazer dignidade, identidade e pertencimento e de como esse universo que eu antes considerava chato e fútil acabou me despertando para a realidade de outras mulheres gordas como eu. Fico duplamente feliz pois foi o primeiro TEDx do Brasil falando sobre moda plus size e sobre representatividade gorda! Uma conquista de todas nós! \o/

Aqui o texto completo! ;-) Lá na hora acabei improvisando e acrescentando algumas coisas então passei do tempo previsto. As imagens são algumas das que usei na apresentação na tela.

Flávia Durante @ TEDxLaçador

Olá, boa noite!

“Aqui não tem NADA do seu tamanho!”
“Oi, estranha que eu nunca vi na vida, nunca pensou em fazer uma bariátrica?”
“Tenho aqui um produtinho milagroso para você perder peso!”
“Você está a um ponto de um ataque cardíaco!”
“Você deveria ser processada!”
“Você merecia morrer!”

Essas são apenas algumas das “gentilezas” que pessoas gordas como eu escutam nas ruas ou leem o tempo todo na internet.

Em uma sociedade movida pela perfeição, o gordo é o último na fila da empatia. Pessoas gordas atraem preconceito e ódio até de grupos minorizados. A gente carrega estigmas independente de nossas personalidades individuais.

Somos vistos como doentes, incapazes e relaxados. Somos excluídos da moda e do mercado de trabalho, os médicos nos mandam emagrecer antes do “boa tarde” e nossa acessibilidade é restrita. Quem é gordo sabe bem do que estou falando, a gente pensa três vezes antes de sentar em qualquer cadeira ou de passar por uma catraca. O mundo não foi feito e nem pensado para nós.

Na mídia e na cultura pop só nos restam três papéis: o da gorda sexy, da amiga gorda virgem ou o do gordinho engraçado. E a nossa existência só é reconhecida se aceitarmos que somos doentes ou se quisermos emagrecer.

Foi um universo que eu rejeitava e achava superficial, a MODA, que marcou minha abertura para a defesa das ideias e da realidade de outras mulheres gordas como eu. E foi a minha identificação com a história de uma menina de 13 anos de idade que se tornou o momento definitivo de virada na minha carreira de jornalista para empreendedora social.

Em 2012 – para fazer uma renda extra no final do ano, como todo brasileiro – comecei a revender biquínis GG. Fui criada na praia e mesmo sem saber já inspirava minhas amigas com os modelos que eu usava. Fio dental, tomara que caia, sem pudor algum de exibir o meu corpo e de curtir cada momento do verão.

Depois que comecei a vender biquínis, tive a ideia de fazer um bazar. Até existiam roupas para gordos mas não existia moda! Até 10 anos atrás havia lojas com nomes pouco convidativos como A PORTA LARGA ou A GORDA ELEGANTE. Eram peças sem graça, de cores escuras ou em forma de saco de batata. Feitos para a mulher gorda esconder suas formas e mesmo sua existência.

“Não há boa autoestima que resista a décadas sendo maltratada e ignorada, quando o que você queria era somente se vestir e estar inserida nas tendências da moda.”

Eu tinha três opções de consumo: o departamento de gestantes, – sendo que nunca tive filhos -; a seção masculina, – sendo que não sou homem -, e as lojas de senhoras, – sendo que mesmo hoje aos 41 anos estou bem longe de me sentir uma. Não há boa autoestima que resista a décadas sendo maltratada e ignorada, quando o que você queria era somente se vestir e estar inserida nas tendências da moda.

Logo de cara meu bazar foi um sucesso e cresceu sem parar! Entendi que não era de Moda que eu não gostava e sim de não me sentir nem incluída e nem representada. Mas até aí eu levava esse bazar como apenas mais uma de minhas atividades como jornalista, DJ e produtora.

Foi só por volta de 2014 que tive o grande estalo! E vi como esse evento estava se tornando muito mais do que um centro de compras…

Foi uma cena corriqueira, algo que poderia ser bem simples: uma adolescente de 13 anos experimentando uma roupa. De repente vejo uma movimentação no bazar e vejo que ela estava com os olhos cheio de lágrimas. Não apenas por ter encontrado um vestido que finalmente lhe cabia, mas também um ambiente de empatia e acolhimento que ela nunca havia experimentado antes. E aí tive certeza do absurdo que era submeter gente tão jovem à pressão estética tão cedo.

Crédito: Robson Leandro da Silva

Olhei aquela cena e me caiu uma ficha! Não é possível que algo tão simples se torne um martírio por conta dos padrões que alguém – QUEM? criou. Me identifiquei imediatamente com ela e lembrei de todas as vezes que ia embora para casa triste e frustrada depois de entrar em dezenas de lojas. Mesmo sabendo que eu não estava errada por ser “diferente”. E que o mercado de moda é que DEVERIA oferecer opções PARA TODOS.

A partir dessa cena, esse trabalho se tornou uma missão muito séria para mim. Decidi que mulheres e homens gordos seriam meu foco e que eu trabalharia para ajudar de alguma forma para que eles se vissem e fossem vistos como mais do que consumidores, mas também como possíveis influenciadores, novos fashionistas mas, acima de tudo, como gente merecedora de respeito.

“A moda é uma forma de expressão que fala sobre quem somos, o que pretendemos ser e como queremos ser percebidos.”

E foi a moda que me despertou para a questão da gordofobia, da representatividade e da visibilidade das pessoas gordas. Pois moda é muito mais do que estar em dia com as tendências das passarelas. Moda é identidade, e o acesso a moda nos traz um sensação de pertencimento e nos dá dignidade. A moda é uma forma de expressão que fala sobre quem somos, o que pretendemos ser e como queremos ser percebidos.

Porém, para o mundo da moda, magreza sempre foi sinônimo de elegância e pessoas gordas, sinônimo de desleixo e cafonice. E poucos dessa indústria já enxergaram esse público. No Brasil, somente 17% do varejo de moda atende o segmento, sendo que quase 60% dos brasileiros vestem plus size.

Somos medidos por um índice criado em 1832, o IMC, o Índice de Massa Corporal, inventado pelo matemático e estatístico belga Adolphe Quetelet. Esse índice foi encomendado pelo governo francês em plena Revolução Industrial para criar um padrão mínimo de peso que um trabalhador deveria ter para retornar à fábrica todos os dias, para produzir força de trabalho.

Aí a gente tem parte da explicação da origem do ódio por pessoas gordas. A magreza é cultuada não só pela estética e por questões morais, mas também por pressão dos modelos econômicos.
Ou seja, um corpo francês do século 19 se tornou o padrão universal que mede até hoje os corpos de todas as pessoas. Nossa vida, saúde e competência são pautados por uma fórmula do século retrasado! Com tudo o que o mundo evoluiu nas últimas décadas, isso não me parece justo.

E se a gente não questiona a Medicina, por exemplo, a homossexualidade até hoje estaria no Código Internacional de Doenças.

Se houvesse mesmo preocupação com a saúde do gordo, por que não equipar hospitais com os aparelhos adequados e exigir dos médicos um atendimento humanizado? Se uma pessoa com mais de 120 quilos precisar de ressonância magnética vai ter que fazer em uma hípica ou hospital veterinário. “Gorda desse jeito seu marido não vai querer fazer filho em você”, foi o que uma amiga ouviu em um consultório. Somos patologizados e desumanizados o tempo todo.

De forma alguma estou fazendo “apologia à obesidade”. Estou simplesmente defendendo a liberdade individual das diferenças. Para que todas as pessoas sejam tratadas da mesma forma e possam conviver dignamente em sociedade.

A demanda pela moda plus size é tão reprimida aqui no Brasil que esse pequeno bazar que criei em 2012 para que cada vez mais mulheres perdessem o medo de usar um biquíni na praia -, virou o Pop Plus, uma grande feira que atrai uma média de público de 12 mil pessoas e 70 marcas por edição.

E a cada feira ouço várias histórias de “primeiras vezes”. E me emociono até hoje, quase seis anos depois. A primeira vez que uma mulher gorda de 30, 40, 50 anos se permitiu comprar um biquíni, uma blusinha de alça ou uma vestido curto. São inúmeras histórias de redescoberta do amor próprio. A gente mostra a todo momento para essas mulheres que elas não estão sozinhas no mundo. O nosso fotógrafo lembra bem do início do evento. Se antes se escondiam da câmera, hoje pulam na frente dele pedindo para serem retratadas.

Crédito: Robson Leandro da Silva

Mas mesmo com esse crescimento, se eu precisar de um vestido maravilhoso para usar HOJE não posso simplesmente entrar em qualquer shopping center e escolher o que quero. Para quem veste acima do 54 então fica ainda mais difícil.

Hoje até sou uma pessoa que pode escolher e que não precisa mais recorrer apenas a roupas para senhoras, homens ou grávidas. Agora me olho no espelho e me sinto satisfeita com o que vejo e como me visto. Mas há mulheres e homens pelo Brasil que ainda não conseguem nem o básico. Precisamos popularizar ainda mais o acesso a moda plus size para todos os bolsos e tamanhos.

A gente vive uma era na qual os profissionais estão repensando a moda em termos de sustentabilidade, de consumo consciente e de gênero. Só que é preciso também incluir pessoas de diferentes tipos de corpos, tamanhos e necessidades. E não só como potenciais consumidores e modelos, mas também como possíveis gestores e criadores de uma nova mentalidade com inclusão real. Que não fique só no discurso e no marketing vazio.

“Minha luta, na verdade, não é sobre moda e nem sobre autoestima e sim sobre respeito, autonomia e liberdade. Não tem melhor coisa do que exercitar a liberdade de ser quem a gente é.”

Revisitando minha trajetória para construir essa palestra percebi que a minha luta, na verdade, não é sobre moda e nem sobre autoestima e sim sobre respeito, autonomia e liberdade. Não tem melhor coisa do que exercitar a liberdade de ser quem a gente é.

Crédito: Robson Leandro da Silva

A minha vontade não é criar um novo padrão de beleza e sim quebrar todos os padrões. Até porque beleza nem é a principal causa de minha luta. Quero mostrar que ser gordo é normal e que não é a pior coisa que pode acontecer na vida de uma pessoa. Para a mulher não achar que sua vida acabou se ela engordar. Que ela não se entupa de remédios que só destroem sua saúde mental e emocional. Que não mutile o seu corpo. Que não chore ao sair de uma loja. Que não deixe de viver sua vida. Porque a vida pode dar mesmo o maior praião quando a gente convive com as diferenças e aprende a se amar.

E que a gente jamais perca um dia de sol lá fora.

Obrigada.

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Todos os TEDxLaçador podem ser vistos no canal do TEDx Talks. 

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Agradecimentos:

Ana Goelzer e toda equipe do TEDxLaçador; todos os queridos colegas palestrantes do TEDxLaçador, que já viraram amigos; Fernanda Danelon, pela indicação para o elenco de palestrantes; Fabio Rex e Vitor Bastos (Tambor), por acreditarem em meu potencial; minha preparadora vocal, Joana Duah, por lapidar o meu potencial; Célia Mello, minha psicóloga querida; Robson Leandro da Silva, por registrar esses incríveis momentos do Pop Plus; Mariane Maure, pela montagem das manchetes; Camila de Lira, pela revisão do texto; Arlise Cardoso e a todas as amigas de Porto Alegre, pelo apoio e receptividade; Luciana Martinez, pelo apoio, amor e o look lindo da Allure Plus Size; Rita de Cássia Zarpellon, Vanessa Joda, Vivi Schwäger, Kalli Fonseca, Rack Land, pela autorização do uso de imagem; Caroline Souza Calazans, pela autorização do uso de imagem e por ter sido a responsável por esse grande estalo na transição de minha carreira; a todos os parceiros, amigos, clientes e colaboradores do Pop Plus; Hector Lima, meu marido, pelo seu amor, companhia, respeito e compreensão.

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